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02.09.2009
ENTREVISTA COM ROLANDO TORO

O PODER DO CONTATO

Entrevista concedida à revista UNO MISMO, do Chile, publicada
na edição de Junho de 2008.





“Todo mundo diz que gostaria de ser amado, que gostaria de viver em paz e segurança. Porém vivemos numa cultura que nos faz esquecer como ter relações de ternura e ser profundamente afetivos, não só com uma pessoa determinada, como com todas as pessoas que nos rodeiam. Seja no trabalho, entre os amigos ou na família. Acontece que as pessoas são descartáveis, são usadas e não existe dentro da escala de vínculos uma qualidade de relações, uma poética do encontro”.

É o que diz Rolando Toro, criador da Biodança, e continua: “Em nosso mundo foram lançadas bombas atômicas, aconteceu o holocausto e  continuam as guerras, o ódio, a competitividade, a violência urbana, intrafamiliar e intraescolar, o terrorismo. A destruição do ambiente é um escândalo intelectual e econômico contra a vida. Na guerra, milhões de jovens são enviados para matar ou morrer. É uma das maiores enfermidades imagináveis. Nesse sentido, a psiquiatria comete um equívoco em sua classificação das enfermidades, porque supõe que as mais graves são a esquizofrenia, a paranóia e a depressão. Mas um louco, declarando-se em seu delírio ser Napoleão ou um enviado de Deus, não faz mal a ninguém. Por outro lado, os que organizam invasões, os que fabricam  armas, os que usam mecanismos econômicos que empobrecem aos mais pobres, estes são os mais enfermos! Falo dos ditadores, assassinos de multidões, que são a decadência mais absoluta. Levamos mais de cem anos de psicoterapia e o mundo segue pior, porque está sendo governado por um império de psicopatas. Grandes líderes mundiais gravemente enfermos! A raiz do mal está na dissociação de Inteligência e afetividade. A inteligência deveria ser usada para que o mundo se tornasse maravilhoso e estivéssemos todos mais felizes. Para o amor e para a criação”.

UM   -  E quando a inteligência está a serviço do amor?
RT     -  Quando temos experiência de afeto, de respeito, de companheirismo. No fundo, toda pessoa deseja contato: está ansiosa por amor, inovação, alegria de viver. Mas é preciso modificar sua mentalidade através da Educação Biocêntrica.
O que proponho não é apenas um discurso, mas uma metodologia: a Biodança. É preciso praticar vivências de encontro, aceitando o outro como ele é, permitindo que ele nos toque profundamente. Reconhecendo que precisamos de colo, que nos abracem, ou se permitindo chorar, rir, celebrar. Porque toda a existência humana se organiza em torno do amor, como consciência de estar vivo e ser significativo para alguém.

UM  -  As pessoas podem curar as outras?
RT    -  Não há saúde solitária, nem tampouco doença solitária, porque nós seres humanos não somos sozinhos. Falou-se muito de alteridade e identidade como opostos, mas hoje se entende que a alteridade está dentro da identidade. Não é “você é você” e “eu sou eu, mantenha distância”. É “eu sou você”. Cada relação nossa com o universo é, primeiro que nada, uma relação com as pessoas.

UM  -  E por que existe a fobia social?
RT    -  Porque estamos numa cultura paranóica. Nos sentimos ameaçados pelo outro. Isso porque temos registros de traição, deslealdade, agressão. Então a pessoa tem que se ocultar para estabelecer vínculos. O que falta no mundo é ternura. Precisamos promover novas formas de aproximação e contato, assim como o regresso ao primordial, à natureza e ao amor. Sem empatia, somos fantasmas que não têm acesso ao mistério dos vínculos humanos.

UM  -  Todas as pessoas têm a mesma capacidade de vinculação?
RT    - Queremos um ser humano com consciência ética, capacidade de amar, criar, evoluir com lucidez, intensidade e harmonia,  em busca da grandeza e do sagrado. Cada pessoa, de acordo com sua história de vida, tem diferentes capacidades de vincular-se.
Existem pessoas que sentem prazer em causar o mal. São psicopatas. Entre estes, há chefes de estado.
Tem também os autistas, que não se vinculam com outras pessoas, apenas com objetos.
Depois tem os sociofóbicos, que detestam estar com outras pessoas.
Em seguida, estão aqueles que usam as pessoas, que são individualistas, e interagem com os outros para obter benefício próprio.
Num escalão superior, estão aqueles que desenvolvem sua identidade na companhia do outro. Esta capacidade é maravilhosa. Porque a identidade desperta, se ativa e se manifesta na presença do outro. As terapias individuais são tranqüilizadoras, mas não produzem crescimento.
Depois vêm aqueles seres empáticos, isto é, aqueles que sabem como se colocar no lugar do outro. Num nível superior, está a capacidade de conectar-se com o sagrado de si mesmo e com o sagrado do outro, e estar em comunhão com o outro.

UM  -  E como aprender a ser uma pessoa com capacidade empática?
RT    -  Com música, dança e carícias podemos descobrir um mundo diferente, onde nossos sonhos se tornam realidade, e a beleza se cria a si mesma no coração de cada um. E nos sentimos plenamente vivos. As pessoas precisam aprender a comunicar-se, a abraçar-se, a olhar-se nos olhos, a fazer rodas, a celebrar. Precisam aprender isso antes de aprender o subjuntivo, a data de nascimento de Napoleão e tabuada de multiplicar. Na educação, é preciso mudar a metodologia e os conteúdos programáticos. Não vejo outra solução, senão mudar a educação. Sem isso, não há esperança nenhuma de sobrevivência da espécie. Mecanismos psíquicos como crenças, valores e atitudes têm que ser mudados.

UM  -  Como nasceu a Biodança?
RT    -  Dizem que inventei a Biodança. Na verdade, a descobri. Trabalhando em antropologia médica na Escola de Medicina, entre minhas tarefas, tinha que estudar o mundo dos pacientes mentais. Então percebi que esses pacientes tinham perdido tudo: sua liberdade, sua capacidade para relacionar-se, para ter amores, sexo, para trabalhar, para criar. Quer dizer, estavam sepultados em vida. Tive a idéia de fazer uma festa para essa gente tão triste. Organizei o evento, convidando familiares, estudantes de medicina, enfermeiras, paramédicos, alguns médicos e, é claro, os próprios pacientes. Ao entrar, já notei uma mudança: arrumados, penteados, muito comportados, como se fossem normais, pois era uma reunião social. Então comecei a por músicas dançantes e descobri que algumas músicas eram muito melhores que outras para produzir mudanças. Diminuíram os delírios e as alucinações, notei um aumento na comunicação e maior gentileza entre eles. Então comecei a selecionar músicas que faziam bem aos pacientes e descobri  outras que faziam mal, como as músicas tranqüilizadoras que produziam um efeito regressivo, que convidavam à psicose. Assim comecei a construir um modelo teórico. E tive uma recepção muito boa no hospital, onde todos compreendemos o milagre que se produzia.

“O ser humano nasceu com medo. Mas sua evolução consiste justamente em aumentar sua percepção e sua consciência. Tem que dar amor, dar amor e dar amor. E aí recebe o amor de volta. Se você está esperando ser amado e não dá amor, nada acontece. A primeira coisa a fazer é aprender a viver."


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